Meu primeiro semestre como professor: uma turma de estudantes ou de professores?

Atualizado: 30 de Mai de 2019

Recap, Spoilers e muita ansiedade.

Por Renan Rizzardo


“Gostaria de ter a experiência de dar aula” - meu depoimento, como essa história começou.


Quem acompanhou meu 2017 notou que o tempo era curto. Reta final do mestrado, vida, trabalho. Todo dia tinha três, quatro turnos. Foi assim que, claro, eu decidi adicionar mais uma etapa nesse processo: dar aula, em uma oportunidade que apareceu como parte do estágio docente no mestrado. Com orientação e supervisão do Fábio Hansen, tive carta branca para oferecer, para uma turma da UFPR, uma disciplina sobre algo que soubesse e já tivesse atuado profissionalmente. Tudo pela primeira vez.


A vida profissional faz com que você tenha experiências com palestras, conferências, apresentações e até alguns treinamentos. Mas até agora nada havia passado de uma tarde, um dia. Estávamos falando de um semestre de aulas semanais, para 35 estudantes. Muita gente, muita responsabilidade. É nessa hora (e talvez para muitos apenas nessa) que você imagina a intensa responsabilidade que é ser professor.


E, assim, você começa a pensar o que pode fazer para que ninguém durma. Para tentar trazer o que 10 anos de experiência no mercado mostraram que você não descobriu na faculdade. Lembra as aulas que mais gostava - e as aulas que não gostava. E também pensa sobre o modelo de educação.


Imagem ilustrativa: docência e o desafio de mesclar conhecimento e paixão


Nunca concordei muito com o modelo proposto, unidirecional. Professor na frente e estudantes receptivos. Concordo com Francisco Mora*: “É preciso acabar com o formato das aulas de 50 minutos”. Sempre tive dificuldade com conteúdos que não me interessavam - física, química. Nunca ninguém me ensinou qual o motivo e utilidade dessas coisas. Desculpem, professores, vocês tentaram, mas apenas “passar no vestibular” nunca realmente atraiu a minha atenção. Não é à toa que simplesmente não estudei no terceirão - mas isso é outra história.


Mas daí chegou o mestrado. E a aula não era unidirecional. Era uma roda de conversa. Na qual eu me preparava antes da aula para conversar, dialogar, falar e, principalmente, errar - para aprender. Gostei desse modelo. Depois que saiu a pressão de ser a pessoa que menos sabe - o piorzinho - assumi esse papel e usei a meu favor. Não sabia todas as teorias, não sabia todos os autores, não dominava todos os conceitos - e tudo bem, estava lá para isso. Be humble. Esse processo me fez pensar como a aula na graduação poderia ser mais ativa.


Nosso tempo é valioso. Essa aula vai ser diferente. Eu não vou fazer isso sozinho” - Meu primeiro diálogo com os estudantes
Todo professor fala isso, mas no seu caso foi assim, mesmo” - Feedback ao final do curso

Depois do ok, veio o desespero. Em uma conversa com o Fábio sobre metodologias ativas, experiências de sala de aula, veio a ideia de trazer a linguagem dos seriados para a sala de aula. Na minha visão, era uma forma de me aproximar dos acadêmicos, com referências a cultura pop e meios que fazem parte do dia a dia deles. As aulas aconteceriam à noite, na terça-feira, precisava ser incrível. Era uma disciplina optativa, então eu tinha que fazer valer a pena.


Então, criei o plano de ensino e quebrei o que eu considerava a estrutura padrão de uma aula. A base do raciocínio era de cocriação, compartilhar o espaço de aprendizagem com os estudantes. Assim, cheguei a um formato padrão:

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Metodologia ativa Descrição Responsabilidade

Previously on - Dupla ou trio apresentam o resumo - Estudantes

da aula anterior. Formato: Pecha Kucha

20 imagens de 20 segundos cada.


Formato Pecha Kucha é um formato de

apresentação em que o conteúdo pode ser fácil,

eficiente e informalmente mostrado, geralmente

em um evento público projectado para essa

finalidade. Sob o formato, o apresentador

mostra vinte imagens de vinte segundos cada,

para um tempo total de seis minutos e quarenta

segundos.



Spoilers/Relatoria - Dupla apresenta um texto relacionado com o - Estudantes

tema do dia.

Formato: apresentação livre, incluindo percurso

do texto - pontos principais - 10/15 min no máx.

Fundamental articular com o restante do conteúdo

apresentado na aula. Obrigatório: trazer uma

campanha publicitária que reflita o texto ou

que, a partir dele, possa gerar uma reflexão.


Exposição - Exposição dos conteúdos programados - Professor e/ou convidado de mercado

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O próximo passo era definir os conteúdos. O meu objetivo geral era demonstrar como as teorias fazem parte do dia a dia publicitário, como a construção teórica é fundamental e pode ser se aplicada, a contrário do senso comum. Para isso, dividi em ciclos principais, iniciando com diálogos sobre cultura e novo consumidor, sobre como a publicidade narra a sociedade e como isso poderia ser traduzido em planejamento. Novamente, não seria apenas a minha voz. Os convidados de mercado, de cada área, iriam conduzir as aulas com exemplos reais de mercado.


CICLO / Temas de Exposição

CICLO 01 - NOVO CONSUMIDOR

1.1 Meeting points e interpretação social do produto

1.2 Cultura transmidiática - a apropriação e a ressignificação no contexto da cibercultura


CICLO 02 - NARRATIVAS PUBLICITÁRIAS

2.1 Narrativas e ethos publicitário 2.2.Retórica e estratégias publicitárias

2.3 Publicidade x crise econômica - o papel do contexto histórico

CICLO 03 - PLANEJAMENTO DE PROPAGANDA - com convidados de mercado

3.1 Planejamento de Branding

3.2 Planejamento de Mídia/ Comunicação

3.3 Planejamento de Produto

3.4 Planejamento Digital

3.5 Tendências

CICLO 04 - Orientações, trabalho e apresentações

Trabalho final


“Ser professor de publicidade quer dizer que, idealmente, toda a aula deve ser um ted talk” - Professora de História comentando sobre a diferença de aulas de publicidade e história.

Esse era o meu objetivo. Cada aula, uma experiência. Os primeiros dez minutos tinham trilha sonora, até os estudantes se ambientarem. Usei muitos gifs. Atualizava as apresentações semanalmente de acordo com as temáticas/polêmicas da semana. Ensaiava as aulas e apresentações (precisava dessa segurança), pelo menos uma vez. Para a primeira aula, produzi 237 slides. Apresentei 150, numa dinâmica veloz (ansiedade). Na minha visão, sempre precisava ter o plano A e o Plano B, de conteúdo. Dinâmicas sempre preparadas, caso eu falasse muito rápido.


Por fim, chegaríamos ao trabalho final. E aqui, quis adicionar mais um ponto. Se mostramos como a publicidade narra a sociedade e a importância e representatividade do fazer publicitário - a todo tempo, somos impactados por padrões visuais da publicidade - os estudantes foram convidados a centrar um Contexto Cultural em um planejamento de publicidade - escolhendo uma das modalidades apresentadas - branding, mídia, comunicação, produto, digital ou tendências.


TRABALHO FINAL:___________________________________________________________________________

Selecionar uma das formas de planejamento e aplicar, de acordo com um perfil de consumidor e o contexto social, a uma marca/produto/serviço. Apresentação por grupos - 30 minutos no máximo - entrega de um paper sobre o planejamento, junto com a apresentação

Selecionar o tipo de planejamento, pode ser mais de um:

  • Branding

  • Mídia/Comunicação

  • Produto

  • Digital


Selecionar o contexto social (preferencialmente um):

  • Feminismo/Empoderamento

  • Combate ao Conservadorismo/Trump e Brexit

  • Combate ao Racismo

  • Combate ao Machismo

  • Legalização da Maconha

  • Transgênero

  • Combate à Homofobia

  • Combate à crise econômica/ desemprego

  • Combate à corrupção


Para o contexto cultural, um ponto foi determinado como importante: o lugar de fala. Não era o papel do professor investigar e apresentar cada contexto. O objetivo era que os participantes compreendessem como a publicidade dialoga com esses contextos e compreender o lugar de fala do publicitário. Nas apresentações, pedi que o planejamento fosse apresentado no modo de storytelling - o contexto, como a marca pode atuar, exposição do planejamento.


Venho agradecer EM MUITOOO a sua aula esse semestre desde já. (juro que não é um e-mail puxa saco). Essa semana, eu entrei como Planejamento na agência e estava mega nervoso por em começar em uma agência ~~grandinha.
E no primeiro dia, já me colocaram caindo de paraquedas em um job enorme envolvendo a Uber. E no final das contas, ontem, acabei fazendo uma apresentação falando sobre os MEETING POINTS + MULTIVÍDUO + SLASH GENERATION. O que caiu lindamente com o cliente e o pessoal da equipe adorou.
Depoimento de Aluno, por e-mail

E, assim, o resultado foi incrível. Os estudantes apresentaram planejamentos para Netflix, Airbnb, e C&A, entre outros. Sempre dentro do contexto cultural. É claro que existiam oportunidades de melhoria em todos - isso vem da experiência profissional - mas é fato que muitos projetos poderiam ser reais. E, como o depoimento apresenta, os conteúdos geraram até um estágio em uma grande agência de Curitiba.


O resultado não poderia ter sido melhor. Teve previously on. Teve equipe de spoilers. Teve combate à lgbtfobia, ao machismo, à corrupção. Teve empoderamento feminino. Teve teoria, práticas de mercado, pesquisa, relevância, representatividade. Teve mood, música, trilha sonora. Teve muito meme. Tudo isso junto com publicidade, do jeito que deve ser. Se isso é o começo de um novo caminho para mim, ainda é cedo para dizer. Mas, respondendo à pergunta inicial, para mim, foram todos professores: todo dia aprendi em sala de aula.





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*Francisco Mora: “É preciso acabar com o formato das aulas de 50 minutos”, disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/17/economia/1487331225_284546.html?id_externo_rsoc=FB_CC, acesso em 25/07/2018.


**Autor: Renan Rizzardo é mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), especialista em Administração de Empresas pela FGV e publicitário pela Universidade Positivo (UP). Atualmente é Coordenador de Marketing da Rede Marista de Colégios e tem experiência em gestão de projetos, metodologias ágeis e planejamento estratégico em áreas transversais de Marketing. Estuda a atividade e a narrativa publicitária dentro da proposta teórica-metodológica da análise de discurso francesa.

renanrizzardo@gmail.com


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