Universidade para todes

*Fernanda Sagrilo Andres


Na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), as aulas, previstas para iniciarem no dia 16 de março, não começaram na data originalmente planejada e, sim, no formato remoto, em setembro de 2020. A suspensão das aulas presenciais e a adoção de atividades remotas para continuidade acadêmica, além de expor as desigualdades educacionais já existentes entre estudantes ricos e pobres, trouxe outro desafio, a preocupação quanto ao aumento da evasão. Uma questão vivenciada, antes mesmo da crise sanitária, que agora passa a ser potencializada. Os dados apontados em pesquisas recentes sobre a evasão discente no curso de Relações Públicas da Unipampa mostram um índice muito alto e preocupante. Nos primeiros sete anos de curso, mais da metade dos alunos evadiram, chegando a 57% (RHODEN; ANDRES, RHODEN, 2018). Esse fator, por si só, merece atenção e, consequentemente, ações efetivas das partes diretamente envolvidas (curso  e  IES).  Infelizmente, esses dados tendem a aumentar, se tratando do contexto atual.


Para tentar minimizar esse impacto, tanto a Unipampa quanto o curso desenvolveram algumas estratégias, entre elas está o olhar mais sensível para a questão financeira dos alunos. A realidade vivenciada por grande parte dos nossos discentes é a falta de acesso à internet e/ou a falta de equipamentos para tal. Estamos nos referindo a uma universidade pública, jovem e localizada no interior do estado do Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina; e de um curso noturno, em que muitos estudantes, dividem a rotina de estudos, com o trabalho.


Uma das alternativas encontradas foi o cadastro de alunos para a distribuição de pacote de dados móveis durante a Pandemia de Covid-19, com o projeto "Alunos Conectados”, referente ao benefício de R$ 95,00 mensais para auxiliar nas despesas de acesso a internet.

Imagem meramente ilustrativa, todos os direitos reservados à wix.com

Outra estratégia, com o objetivo de oportunizar aos estudantes ingressantes por meio das ações afirmativas para a participação no ensino remoto, foi a doação de notebooks.


Para além das questões financeiras, e em busca de tentar reduzir o número de desistências, o curso de Relações Públicas tentou encontrar maneiras de fazer conexões com seus públicos, no ano em que celebrou 10 anos de funcionamento. Especificamente sobre as ações de relacionamento, desenvolvidas antes mesmo do período letivo, estão:


(1) aproximações personalizadas: contatos telefônicos, envio de mensagens e desenvolvimento de pesquisas com discentes para compreender a realidade e orientá-los sobre o acesso aos meios do curso e a dinâmica das atividades remotas;


(2) ação coletiva e colaborativa: o projeto de extensão APOIE SB foi uma campanha de comunicação desenvolvida por alunos e professores, que nasceu da necessidade de auxiliar os pequenos negócios e os microempreendedores do município de São Borja a divulgarem seus trabalhos. A ação ganhou adesão e repercussão e da comunidade local e foi homenageada pela Câmara de vereadores;


(3) capacitações: cursos de escrita científica e de ferramentas para o ensino remoto, com o propósito de desenvolver novas competências e habilidades aos discentes.


A universidade é um espaço plural. A educação é direito. Precisamos encontrar formas de incluir todos e todas. Antes mesmo de pensarmos em ações pedagógicas, precisamos dar garantias de acesso. O ensino remoto revela outras “telas”, mais sensíveis até então, um tanto invisíveis. As ações de relacionamento elencadas, aproximaram o curso dos estudantes, abriram espaços de diálogo e mantiveram o vínculo. Estamos na terceira semana de aulas, os efeitos ainda serão sentidos.


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*Fernanda Sagrilo Andres é Relações Públicas, Especialista em Docência Universitária, Mestra e Doutora em Comunicação, Professora Adjunta na Universidade Federal do Pampa.


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