As Artes de Viajar.

Atualizado: 5 de Mai de 2018

Ou a coisa que eu mais curti fazer neste ano como professor.


Março 02, 2018 | André Tezza

Todo professor sabe: é muito difícil empolgar um aluno para a leitura. Ou para a arte. Ou para o estranhamento. O problema não é de hoje, nem é tipicamente brasileiro. As razões são múltiplas, complexas, e, honestamente, não tenho uma resposta definitiva nem das causas e nem de como enfrentar o problema. Mas eis uma tentativa minha que, tudo somado, não só sobrevivemos como penso que avançamos.


No início do ano, montei uma disciplina optativa que foi ofertada para os cursos de Publicidade, Jornalismo e Design da Universidade Positivo: “As Artes de Viajar”. A proposta era relacionar a viagem com as artes. Mais especificamente: criar interesse em repertório a partir de artistas que, de algum modo, foram viajantes. De imediato, o tema atraiu a atenção dos alunos e as vagas (disciplinas optativas têm vagas limitadas) se esgotaram no primeiro dia de inscrição.


Sim, a viagem é um tema caro para a juventude. Coisas de uma geração que quer fugir de tudo, não assume responsabilidade alguma e só quer desviar, a todo custo, do mundo adulto? Não digo que não há parcela de verdade em quem aposte nisto, mas minha aposta principal não é esta, não.


Fugir, fugir para o mundo, é uma questão chave da modernidade, desde o seu início, desde pelo menos Montaigne, no século XVI: “sei do que vou fugindo, não sei o que vou procurando”. E, sim, como nota de rodapé importante, Montaigne também escreveu literatura de viagem — seu “Journal de Voyage” (sem tradução ainda para o português) é a história de uma viagem de dois anos do autor pela Alemanha, Suíça e Itália.

Para quem está habituado com as questões da estética, nenhuma novidade na minha proposta: arte e viagem é uma relação incestuosa, antiga e ainda próspera. A questão era como apresentar e organizar o assunto para os alunos.


A primeira providência foi montar o passaporte. O passaporte é um conjunto de indicações de escritores, músicos, artistas plásticos, cineastas e fotógrafos, selecionados a partir de países destinos. Fiz minhas listas e deixei a Practice, a agência experimental do curso, fazer a proposta gráfica, que foi comandada pela Larissa Meyer e Mateus Schiontek, com ilustrações da aluna Luana Chemin.


Passaporte, cada aluno ganhou o seu. Layout da agência experimental do curso.

Claro, listas são sempre complicadas e eu dei uma aula somente para justificar as minhas escolhas no passaporte, bem como as minhas limitações. Alguns critérios que nortearam as escolhas: olhar de viajante (por exemplo, na parte de Portugal, há “A Viagem Vertical”, de Enrique Vila-Matas, um autor espanhol — mas é um olhar espanhol sobre uma viagem até a ilha da Madeira), importância da obra para a identidade do país, prestígio intelectual. Eu sei, falar de “prestígio intelectual” é um tema cabeludo para os nossos dias, porque não trata somente de questões da estética, mas também das relações de poder que estabelecem um cânone — a discussão sobre o que é um cânone, sua necessidade e fragilidades, fez parte da disciplina.


No passaporte e nas aulas, eu privilegiei a leitura e a literatura. Mais: disse aos alunos que o objetivo da disciplina era que, ao término, todos tivessem lido pelo menos um livro. É fácil relacionar viagem e literatura. Bom, de certo modo, a literatura do ocidente começa com a história de uma viagem, a Odisseia de Homero, né? Mas há muito mais. Steinbeck, Saramago, V.S. Naipaul, para citar três prêmios Nobel, escreveram literatura de viagem, assim como Borges e Fernando Pessoa  —  a lista é enorme, aqui é só aperitivo. Entre nós, há produção muito boa também: Érico Verissimo, Mário de Andrade, Cecília Meireles, entre outros, escreveram seus livros de viagem.


Entre fotógrafos, o passaporte e as aulas apontaram para fotógrafos que viajaram, como Ansel Adams ou Walker Evans. Entre músicos, cineastas e pintores, aqueles que são extensão de identidade, de Frida a Hopper, de Piazzolla a Mina, de Campanella a Kurosawa. Para amarrar tudo, algumas teorias contemporâneas sobre identidade: Stuart Hall, Edward Said e Yuval Harari.


Primeira turma de As Artes de Viajar: no laboratório de gastronomia com o chef João Soto. Foto de André Moraes.

Mas teve mais. Chamei amigos professores para dar palestras. A grande fotógrafa e professora Anuschka Lemos fez uma belíssima palestra sobre fotografia de viagem. E o grande chef e professor João Soto nos levou para a cozinha, onde viajamos por deliciosas receitas indianas, com os alunos literalmente com as mãos na massa para entender a cultura de um país.


  Ao término da disciplina, cada aluno escolheu um país e o relacionou com um livro. Houve apresentação em sala e, em uma das duas turmas ofertadas, fizemos uma publicação aqui dentro do medium (deem uma espiadinha, ficou muito legal: https://medium.com/as-artes-de-viajar).


Funcionou?  Nem todos leram um livro. E nem todos aproveitaram tudo o que poderiam ter aproveitado. Mas, na média, houve interesse e entusiasmo — bem mais do que estou habituado como professor. Muitos repensaram suas próprias viagens e aprenderam um novo olhar sobre a cultura, a identidade e a arte.  


É bom a gente lembrar que estudar na universidade não tem somente a ver com a aprendizagem de uma profissão, ou com um agir sobre o mundo, ou com uma defesa frente aos perigos do mundo. Mas também: encantar-se com o mundo, maravilhar-se com o diferente e com aquilo que nos é estrangeiro. Não é preciso viajar para fazer isto: basta saber olhar e a arte nos ajuda muito no caminho.

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André Tezza é professor de Comunicação e Cultura Digital, Criação Publicitária e Ética e Legislação Publicitária na Universidade Positivo (UP) e doutorando em Ciências da Informação na Universidade Fernando Pessoa, em Porto/Portugal.

e-mail: atconsentino@gmail.com

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