Teoria da Comunicação rima com Diversão

Atualizado: Ago 26

Notas sobre o uso da música como metodologia para um aprendizado lúdico


*Adriana Schryver Kurtz


E se os alunos fossem capazes de introjetar o pensamento crítico de Theodor Adorno a partir de uma música que o grande teórico alemão não teria dúvida em chamar de puro “lixo cultural”? Pode parecer delirante apenas para quem sustenta uma prática de ensino clássica, com toda a formalidade, a pompa e a seriedade requisitada. O que até caberia numa pós-graduação, espaço no qual a maioria dos alunos já exerce seu trabalho como professor. Mas no âmbito da graduação, abre-se uma possibilidade interessante. Se nossos – cada vez mais - jovens alunos vivem imersos numa produção cultural alienada e alienante, deixemos que a mesma sirva como material para uma abordagem crítica. Que eles possam fazer o movimento contra-hegemônico a partir da própria realidade hegemônica. Para usar alguns elementos caros à Teoria Crítica da Sociedade e ao seu grande pensador, se a Indústria Cultural é um sistema que a tudo engloba na produção (e circulação) contemporânea de cultura e arte sob o capitalismo, pode ser a partir dela que uma tomada de consciência e um incipiente potencial crítico sejam possíveis. Certamente, pode-se argumentar que esta posição está mais próxima de um Fredric Jameson (e seu mal compreendido “marxismo pós-moderno”) do que do clássico Adorno. Mas há que se lembrar que Adorno relativizou as colocações mais peremptórias (“apocalípticas” na expressão de Umberto Eco) do texto chave sobre a Indústria Cultural em escritos posteriores, quando retornou à Alemanha e acompanhou vivamente a produção cultural europeia. Uma produção cultural que não apenas fugia à noção de alienação das massas como insinuava um caráter emancipatório. Dizendo de forma mais crua: a morte prematura de Adorno e a necessidade que sentiu em vida de se manter coerente com seu conceito chave no âmbito da arte e da cultura sob a lógica do mercado impediram que o autor pudesse reavaliar de forma mais consistente suas colocações, o que Jameson fará ao seu estilo.


Mas aqui, Adorno e a crítica à Indústria Cultural apenas exemplificam uma proposta metodológica de ensino para os Cursos de Publicidade e Propaganda - e também de Jornalismo - cujo relato pretendo dividir com os colegas. É evidente que Teorias da Comunicação não se resumem aos conceitos da Teoria Crítica da Sociedade. A disciplina tem um universo conceitual vasto e complexo, que tenta dar conta dos três eixos centrais do processo comunicacional (emissor, mensagem, receptor) numa trajetória histórica que inicia após a IGM e chega aos dias de hoje incluindo, no mínimo, a Mass Communication Research, os Estudos Culturais Ingleses e os de recepção, os Estudos Culturológicos (com destaque para Morin), a Semiologia e Semiótica e, eventualmente, algumas teorias da mídia (Agenda-Setting, Espiral do Silêncio e Newsmaking).


Voltemos então à pergunta que abre, provocativamente, este texto para esclarecer a dinâmica de uma metodologia ativa cuja adoção, ao longo dos últimos três anos, vem possibilitando aos alunos um aprendizado de rigor teórico e conceitual que combina com criatividade, liberdade, expressão artística e - por que não? -, divertimento. A proposta que começou de forma experimental em 2015 propunha um trabalho para a Disciplina disposto a desafiar os alunos: eleger uma música para servir como base para uma versão ou paródia, cujo tema seja uma ou mais Teorias da Comunicação. Escolhida a música, os alunos, organizados em grupos, partem para a criação da versão/paródia, sob orientação da professora. Paralelo ao processo de criação da música, os alunos precisam buscar um conceito para a produção da mesma num clipe audiovisual (ou numa apresentação ao vivo em sala de aula). E também devem elaborar um trabalho impresso no qual apresentem música original e versão produzida; justificativa para a escolha da música, breve retomada de seu gênero e lugar no panorama musical e sócio-cultural de seu país de origem (é permitida a escolha de músicas estrangeiras, embora a maioria das músicas adotadas seja nacional, o que considero um bom sinal em termos de consumo cultural dos alunos); apresentação da(s) teoria(s) escolhida(s) com o devido desenvolvimento de seus aspectos históricos e conceituais (na qual o uso de autores e fontes de pesquisa é exigido) e, finalmente, uma análise na qual os trechos da composição sejam destacados e relacionados com os pressupostos conceituais e/ou históricos da teoria em foco. Como eu mesma sempre digo aos alunos: não basta poesia e rima, há que se ter teoria.


Note-se que a amplitude do trabalho abre uma perspectiva de muita liberdade criativa na música, na sua performance (onde alunos cantam, dançam, interpretam papéis, gravam e editam) e na própria concepção do trabalho escrito. Apresentados em sala de aula ao final do semestre, a maior parte desta produção acabava, entretanto, confinada a um seleto grupo. A qualidade crescente dos trabalhos e a empolgação dos alunos com suas criações ensejou a organização do 1º Prêmio Música & Teoria da Comunicação (2018), evento que reuniu dez dos melhores clipes produzidos:

https://www.youtube.com/playlist?list=PL1EqhhDRJlFwmj80nGebAKLGCnvaApcQI

Professores convidados e alunos de diversos níveis dos Cursos de Publicidade e Propaganda e Jornalismo tiveram dificuldades para premiar os três melhores trabalhos, além da Revelação Musical e o Prêmio do Júri Popular. Aberto para familiares e convidados dos concorrentes, as duas sessões – manhã e noite - do Prêmio propiciaram uma interação efetiva entre a ESPM-Sul e o entorno afetivo de seus alunos. E o que se viu confirmou a tese de que Teoria combina com diversão, humor e ironia ao som de versões musicais de autores tão diversos quanto Caetano Veloso & Gilberto Gil, Titãs, Rita Lee, Raul Seixas, Legião Urbana, Marcos & Belluti com Wesley Safadão e Taylor Swift. As composições tematizaram a Teoria Hipodérmica, da Persuasão e as Teorias da Mídia, explicando a fixação da agenda pública, os enquadramentos jornalísticos e a possibilidade de formação da Espiral do Silêncio. O mais surpreendente? Na maioria dos trabalhos, sobressai uma crítica consistente ao sistema da Indústria Cultural, a partir de seus produtos mais pobres, alienados e alienantes, do sertanejo universitário ao pop global açucarado. Uma abordagem musical lúdica fez rimar, enfim, Teoria e Diversão.


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Adriana Schryver Kurtz é Jornalista e Professora. Doutora e Mestre em “Comunicação e Informação” pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/FABICO/UFRGS). É líder do Grupo de Pesquisa “Teoria e Prática no Jornalismo” e Coordenadora do Núcleo de Estudos em Jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (NEJOR/ESPM-Sul). Leciona Teorias da Comunicação há 18 anos na ESPM para os Cursos de Publicidade & Propaganda e Jornalismo. akurtz@espm.br

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