Reflexões e experiências, em busca de um novo rumo.

Atualizado: 9 de Abr de 2019

Dezembro 18, 2017|Maria Paula M. Mäder


Quando o assunto em pauta é ensino superior, normalmente o rumo das discussões envolve tópicos polêmicos e opiniões divergentes, que vão desde a qualidade das instituições, considerando o comparativo entre as públicas e as privadas, recaindo, evidentemente, nas suas estruturas físicas (quesito que não se pode comparar entre públicas e privadas) e nas propostas curriculares. Raramente se toca no assunto sobre a formação dos docentes, limitando-se em geral às qualificações formais, sem jamais se questionar (é quase um tabu!) se há alguma formação didática em seu currículo.


Mas, se você juntar dois ou mais desses docentes, poderá ouvi-los falar sobre seus alunos, e não raro o que se aponta é que estão cada vez mais dispersos, vivem mergulhados no celular, que pouco ou nada interagem nas aulas. Sim, é fato, nossos alunos estão muito mais conectados à tecnologia e ao que acontece por meio dela do que ao professor diante de uma classe, que já não representa, nem de longe, uma fonte de saber e de informação, já que para eles isso se chama Google. A geração Y (os millennials) apresenta grande habilidade para fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas por outro lado tem grande dificuldade em manter sua atenção na mesma coisa por longos períodos, o que se agrava quando eles não percebem a relevância ou utilidade do que está sendo apresentado. São rápidos, ousados e espertos, mas muito impacientes, querem resultados imediatos.


São inúmeras as pesquisas que apresentam o perfil do jovem do século XXI (1),e o fato é que a relação desse jovem com a tecnologia, especialmente com os dispositivos móveis e a conexão com a internet em qualquer lugar e a qualquer momento, revela traços importantes de como eles se relacionam com o mundo, com as informações e com suas redes de contato, sejam eles amigos, colegas, professores ou até mesmo com a instituição de ensino.


Um aspecto relevante desse perfil é que a maioria dos seus acessos à internet são para estabelecer comunicação com seus contatos, por meio das diversas redes sociais, mensagens instantâneas ou ainda os e-mails, o que evidencia a importância que esse jovem atribui para o relacionamento e as trocas entre seus pares. Outro fator muito valorizado por esses jovens é a facilidade de obter informações por meio da internet, seja consultando sites, portais, blogs ou mesmo as próprias redes sociais, nas quais é possível fazer parte de grupos com interesses em comum. 


Pois bem, este é o jovem que temos nas salas de aula de cursos de graduação; é o nosso aluno de Publicidade e Propaganda. E se ele assim se relaciona com o mundo, não poderia ser diferente a sua relação com os conteúdos, as aulas, o aprendizado. Portanto, já passa da hora de os docentes de ensino superior assimilarem seu novo papel nesse contexto e posicionarem seus alunos como protagonistas de seu aprendizado. Não há a menor dúvida de que a maioria desses docentes são muito bem preparados em termos de conteúdos das áreas nas quais lecionam, mas podemos afirmar, da mesma forma, que estão todos preparados para desenvolver competências em seus alunos? Estamos, nós, preparados para explorar as tecnologias a favor de um processo de aprendizagem muito mais autônomo por parte de nossos alunos? A capacidade de aprender de forma autônoma é uma competência essencial na sociedade do conhecimento.


Imagem meramente ilustrativa Endereço eletrônico URL https://smallbiztrends.com/2012/05/team-communication-small-business.html

A aprendizagem ubíqua já é uma realidade: a constante aquisição de conhecimento, em qualquer ocasião ou circunstância, em diferentes contextos, de forma individual ou mesmo em grupo, a partir de diferentes dispositivos. Atribui-se a Lucia Santaella a definição de aprendizagem ubíqua, e a autora defende que esta pode emergir de necessidades ou de curiosidades e pode ser saciada imediatamente, a partir de um dispositivo com conexão à internet, acessando uma rede de contatos instantâneos e promovendo um processo de aprendizagem colaborativa.


Mas assim, desse jeito, informalmente? Sim, sem dúvida. A aprendizagem colaborativa (ou cooperativa) tem grande potencial justamente nesse sentido, de estimular a interação, a troca de informações e conhecimentos entre pares, a fim de resolver problemas contextualizados e imediatos. De acordo com os diversos autores que defendem a aprendizagem colaborativa, essa troca torna os alunos mais responsáveis pela sua aprendizagem, já que necessitam de autonomia para assimilar conceitos e construir conhecimentos.


Lecionando há quase duas décadas, venho observando mudanças no cenário das salas de aula de Publicidade e Propaganda. Um fato que merece atenção – e que talvez tenha relação com o perfil dos alunos dessa área - é que quanto mais “formal” parecer a aula, menos engajamento se tem da turma, enquanto que, se ousarmos desafiá-los a compartilhar suas pesquisas, suas experiências ou até mesmo suas opiniões, os resultados podem ser ricas e efetivas participações com grande aproveitamento de aprendizagem para o grande grupo. E por quê? Porque a aprendizagem precisa ser, mais do que nunca foi em tempo algum, uma aprendizagem significativa!


Não pretendo aqui adentrar na discussão das diversas teorias sobre o processo de ensino- aprendizagem, mas quero chamar a atenção para o que torna uma aprendizagem significativa para um aluno, e tomemos como exemplo o aluno de Publicidade e Propaganda. O primeiro passo é aplicar uma metodologia que seja capaz de envolver o aluno, que faça ele se sentir de fato o responsável pelo desenvolvimento da sua aprendizagem (e por que não dos seus colegas?), ficando, dessa forma, implícita a responsabilidade de também promover o desenvolvimento de competências úteis ao mundo real. Por definição, entende-se que aprendizagem significativa é aquela que envolve a aquisição/construção de significados e, para que ela ocorra, o aluno deve utilizar-se dos conhecimentos já existentes em sua estrutura cognitiva, ou seja, implica a conexão que esse aluno estabelece entre o que ele já sabe e o que ele está adquirindo.


Mas e qual seria essa metodologia milagrosa? Afinal, o termo “metodologias ativas” é Top of Mind, no meio acadêmico, e basta então o docente escolher uma delas no “cardápio”, aplicar a fórmula mágica e pronto, está tudo resolvido! Fácil? Seria, se assim funcionasse. O que funciona, pelo que tenho observado em minhas pesquisas, é partir do princípio de que a linha mestra das metodologias ativas é a autonomia do aluno, em que “ativa” se coloca em oposição à “passiva”, remetendo à atitude esperada desse aluno no processo. Para além disso, não é o rótulo ou molde aplicado à risca que trará o sucesso, mas sim a adaptação de uma metodologia que se afine ao conteúdo da disciplina ministrada e aos objetivos com ela pretendidos.


Venho desenvolvendo algumas experiências em minhas aulas, algumas delas com retorno bastante significativo. Descrevo uma delas, realizada numa disciplina de 8º período do curso de Publicidade e Propaganda. Por se tratar de uma turma de concluintes, entendi que cada um deles já havia adquirido conhecimentos e uma pequena experiência, o que poderia agregar, naquele momento, muito mais do que os conteúdos ofertados por mim. A disciplina, intitulada Prática de Comunicação Integrada, tem como objetivo principal perceber as aplicações mais adequadas das ferramentas de CIM em diferentes contextos e objetivos. Estando no último semestre, os alunos estão em pleno desenvolvimento de seus trabalhos de conclusão, cuja essência é justamente o desenvolvimento prático de um planejamento de comunicação integrada para clientes reais. Dessa forma, a fim de promover uma aprendizagem significativa aos alunos, foi desenvolvida a atividade do semestre de forma a agregar suporte extra aos TCCs. A partir de um sorteio entre equipes, criaram-se relações entre elas e cada uma se tornou responsável (consultora) para pesquisar referências e cases de sucesso no segmento do grupo (cliente) ao qual ficou associado no sorteio. A cada encontro semanal, a equipe consultora apresentava o segmento da equipe cliente em questão e ilustrava com os exemplos pesquisados, fazendo seus comentários e adequações para e por fim abrir-se um fórum para as participações e contribuições de todos. Ao fim da aula, todas as contribuições eram postadas no grupo fechado da turma, no Facebook, para registro e consulta posterior, tanto para avaliação das participações, quanto para referências dos alunos.


O resultado já foi observado no decorrer do bimestre, com o envolvimento dos participantes, tanto no que se refere ao comprometimento das contribuições de consultoria quanto nos comentários durante o fórum, o que no contexto de uma disciplina de último período é muito representativo. A fim de validar o processo, foi aplicada uma breve sondagem com os participantes, e em questão objetiva sobre a aprovação da atividade, obteve-se 100% de aprovação. Em questão aberta, que questionava se a metodologia aplicada é adequada para o curso e o conteúdo, destacam-se alguns comentários: Aluno 1: “Eu acho muito importante que exista esse método de aprendizagem, pois isso é uma prática para o que estaremos presenciando fora da vida acadêmica. Na área de comunicação é bom estarmos sempre ligados em tudo que acontece (…)”. Aluno 2: “(…) não é só o professor que pode colaborar com os alunos e sim os alunos têm também a chance de cooperar de alguma forma com todos (…)”. Aluno 3: “(…) com esse tipo de metodologia, o aprendizado e envolvimento da turma rendem quase 100%.”


Atribuo os resultados positivos dessa atividade ao protagonismo dos alunos e à relevância contextualizada das trocas de informação e conhecimento. A metodologia não seguiu à risca nenhuma “cartilha”, mas inspirou-se na Peer Instruction (aprendizagem por pares), baseada na ideia de desenvolvimento por meio da troca entre colegas, e ainda da aprendizagem colaborativa que, dentre outras coisas, estimula o pensamento crítico e o desenvolvimento da capacidade de interação para resolução de problemas.



(1)Pesquisa “Juventude Conectada”, de 2014, coordenada pela Fundação Telefônica Vivo em parceria com o Ibope, Instituto Paulo Montenegro e USP.

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* Maria Paula Mansur Mäder é doutoranda em Educação pela PUC-PR, com Estágio Avançado no Instituto de Educação da Universidade do Minho, em Braga/Portugal. Especial interesse e pesquisa em desenvolvimento sobre metodologias ativas, uso de tecnologias na educação e a formação do docente do ensino superior, especialmente no ensino de Publicidade e Propaganda. Formada em Comunicação Social e em Letras, pela PUC-PR, com especialização em Leitura de Múltiplas Linguagens e Mestrado em Comunicação e Linguagens. Professora das disciplinas de Redação Publicitária e de Planejamento de Comunicação na UniBrasil Centro Universitário.


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