E se “Teorias da Comunicação” fosse a matéria predileta dos meus alunos? Sobre algumas tentativas

Atualizado: 5 de Mai de 2018

Abril 06, 2018 | Lorreine Beatrice Petters


  Não sei vocês, mas quando descobri que daria aula de Teorias da Comunicação, essa disciplina clássica que compõe os currículos de vários cursos de Publicidade, fiquei ao mesmo tempo feliz e apreensiva. Feliz, pois quando fui aluna adorei ter feito essa matéria. Tive a sorte de ter uma professora competente, capaz de nos questionar nos fazendo ler No logo (Klein, 1999) desde a primeira semana de aula. Apreensiva, pois já imaginava meus futuros alunos do primeiro ano da graduação, recém saídos do ensino médio, lendo o título dessa matéria – no meio de outras mais práticas ou aplicadas, como marketing e fotografia – e se perguntando o que Teorias poderia agregar à formação? Se seria “só” teoria mesmo ou se teria “coisas pra fazer”? É válido dizer que essa apreensão também estava associada a um contexto específico: aqui na França, onde moro, as universidades públicas propõem graduações mais teóricas e generalistas, quase sempre denominadas “ciências da informação e da comunicação”. Mas eu deveria ensinar essa disciplina numa “escola de comércio”, estabelecimento de ensino superior privado e direcionado à prática profissional; os alunos fazem estágio desde o primeiro ano.

         Não tinha vontade de propor aulas em que eu ficasse falando duas horas da escola de Palo Alto, por exemplo, sem um debate com os alunos. Claro que leituras de textos estavam previstas. Além disso, adoro falar de Jean Baudrillard e da sociedade de consumo, e passar um trechinho de Clube da Luta (filme de David Fincher, 1999). Ou ainda, apreciar Tempos Modernos (filme de Charlie Chaplin, 1936), antes de abordar a Escola de Frankfurt. Porém, seria necessário um esforço maior para cativar o interesse desses alunos. Para implicá-los no processo de construção das aulas, acabei adotando duas soluções, ligadas ao que chamamos aqui de “pedagogia ativa”.

       A primeira, já bem comentada na França, é o princípio da classe invertida. Na definição mais comum, a “classe invertida” consiste em deixar para fazer em casa a parte “magistral” da aula (a parte expositiva e explicativa); o estudante pode assim pesquisar, ler textos previamente indicados pelo professor ou assistir a vídeos online que o ajudem a preparar a aula. E a utilizar o tempo da aula para realizar exercícios tradicionalmente feitos em casa, com a ajuda do professor e dos colegas. Ou ainda, o professor propõe aos estudantes a realização de atividades de baixo teor cognitivo em casa, para privilegiar em classe o trabalho colaborativo e as tarefas de aprendizagem de alto teor cognitivo, colocando os estudantes em atividade e em colaboração.

No meu caso, a solução foi bem simples: no final de cada aula, eu deixava um texto para os alunos, que eles deveriam ler para a aula seguinte, acompanhado de um guia de leitura (ou seja, de algumas perguntas que pudessem estimular os alunos a colocarem em relação a nova leitura com textos já lidos ou ainda que os encorajassem a fazer pesquisas complementares). Na aula seguinte, começávamos sempre por uma síntese e por um debate do texto lido, que me permitia completar a parte mais teórica das aulas e abordar as principais escolas, autores e correntes de pensamento que constituem o campo da comunicação. Em seguida, era o momento do “desafio coletivo”, em que os estudantes deviam responder a uma questão, em grupos de três ou quatro. A questão proposta era geralmente ligada à atualidade e ao que eles haviam previamente lido (os alunos deviam, por exemplo, mostrar como as noções de solicitação e de gratificação de Baudrillard se manifestam em algumas publicidades e questionar a evolução dessas manifestações entre os contextos de Baudrillard e a atualidade). A restituição do exercício devia ser feita oralmente pela equipe, permitindo assim uma nova série de trocas e discussões.

        Vale lembrar que a tradição da academia francesa, e digo isso com um olhar de novata, ainda está muito baseada na transmissão. O professor é aquele que sabe, que se dedica à pesquisa e que pode, dessa forma, passar uma aula inteira lendo o seu próprio artigo sem sequer suscitar o debate ou se preocupar se os alunos entenderam vagamente o assunto abordado. Nesse aspecto, e de um ponto de vista meramente empírico, o Brasil me parece bem avançado em relação às práticas francesas, a tal ponto que a própria denominação “classe invertida” talvez nem faça sentido. Além disso, as diferentes práticas que podem ser associadas à “classe invertida” devem ser pensadas em relação à disponibilidade dos estudantes. Na graduação, muitos estudantes trabalham ao mesmo tempo que cursam a faculdade, o que é um pouco menos recorrente na França, visto que as aulas não são organizadas por turnos e um estágio na área de formação, de duração imposta, entra quase sempre no programa de ensino.

         A segunda solução que adotei foi propor aos alunos a realização de um jogo de cartas ou de tabuleiro sobre os conteúdos relacionados às Teorias da Comunicação. As regras eram simples: em equipe deveria ser criado um jogo em que fosse possível aprender jogando. Eles poderiam, é claro, se basear em jogos já existentes para a elaboração das regras e realizar pesquisas complementares. No fim do semestre, os jogos criados seriam apresentados e jogados por outros alunos. Admito que me questionei várias vezes sobre a real contribuição dessa atividade para os objetivos pedagógicos da aula. Uma vez concluído o semestre, fiquei contente com o resultado: os alunos puderam apreender determinados conteúdos pensando em como explicá-los ou em como ensiná-los, fizeram pesquisas complementares, sintetizaram e aplicaram conhecimentos. Além disso, muitos usaram a criatividade na composição dos tabuleiros e cartas, o que permitiu motivar mesmo os perfis mais criativos de estudantes. E quem pensa que apenas jogos de perguntas e respostas foram propostos, se engana. Tivemos direito a versões adaptadas de detetive ou de Twister.


Aula em que os alunos puderam jogar os jogos produzidos pelos colegas. Fotos do arquivo pessoal da autora.

Enfim, fica a pergunta: de que modo uma disciplina como Teorias da Comunicação contribui à formação de profissionais da publicidade? Para quem gosta de pensar na complementaridade entre saberes teóricos e práticos assim como na estruturação de programas curriculares que façam sentido para os alunos, vale a pena conferir o trabalho de Jacques Tardif, pesquisador canadense, sobre a abordagem por competências. Para ele, e de maneira simplificada, uma competência é um saber-agir em uma determinada situação complexa. A tarefa dos professores é assim de permitir que os alunos desenvolvam certo número de competências importantes para o seu futuro profissional. De fato, o aspecto que me parece realmente indispensável no ensino das Teorias da Comunicação é encorajar os alunos a confrontar as teorias estudadas às práticas atuais da publicidade e, de maneira geral, da comunicação social, assim como estimular uma reflexão crítica dessas práticas, colocando-os em situação de questionar ideias e atitudes.


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Lorreine Beatrice Petters é graduada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda. Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade Sorbonne Nouvelle (França). Faz parte do grupo de pesquisa “Abordagens pragmáticas em filosofia da linguagem e em comunicação”, da Universidade Sorbonne Nouvelle (França). Ensina há mais de 4 anos em estabelecimentos de ensino superior públicos e privados franceses, e é atualmente chefe de projetos em inovação pedagógica na universidade Paris Est Marne la Vallée (França). lorreine.petters@gmail.com
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