"Avião sem asa"​, assim sou eu sem meu aluno: uma relação afetiva entre aluno e professor

Mario Abel Bressan Junior*


Na relação professor x aluno, o que não faltam são expectativas [de ambos os lados], para uma troca saudável de conhecimento e afetos.


Estamos afetivamente presente no mundo. Pelos afetos movimentamos nossos sentidos e buscamos satisfação em estar com alguém ou realizar qualquer tipo de ação.


Ler um livro, assistir TV, passear, estudar ou simplesmente conversar com amigos, são exemplos de que "o sentir" é uma hélice que faz decolar qualquer operação.

Assim somos nós professores, que em vários momentos funcionamos como pilotos de uma aeronave. Guiamos nossos alunos para horizontes desconhecidos com a intenção de fazê-los compreender o que ensinamos e o precisam aprender.


Diante disso, seria possível estabelecer um aprendizado quando não há um afeto?

Pontuo que não. Não se pode criar um vínculo de aprendizagem sem uma relação afetiva. Trata-se de um contrato estabelecido mesmo que inconscientemente. Só vamos aprender algo quando estamos inseridos "de coração" no processo. Por isso, o professor é figura essencial para estabelecer um sentido a este voo.


Imagem meramente ilustrativa:https://pixabay.com/pt/

É nosso papel "chamar" o aluno e cativá-lo para esta relação dupla. Afinal, sem asas um avião não pode voar.


Pode parecer difícil criar um sentido afetivo em uma relação em que o professor é o protagonista da história. Na verdade, acredito ser esta a única narrativa em que não há apenas um papel principal. Todos são coadjuvantes. Compreendo que há [sim] uma função de respeito com o docente. Ele é o comandante que faz o avião levantar voo. No entanto, se não há passageiros, não faz sentido voar.


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Devemos prestar atenção se todos estão envolvidos afetivamente com o que estamos propondo. Aproximar de um aluno que está distante nessa relação pode ser essencial para mudar a sua perspectiva diante o aprendizado. Precisamos pilotar nossa tripulação com afetos. São por eles e com eles que alcançamos nossos objetivos.


E como ser afetivo?

Primeiro, é preciso se permitir a isso. Destrua o muro que possa envolver vocês. Sinta-se parte do mundo deles. Converse, pergunte sobre suas vidas e se mostre disponível para o que necessitar. Não é ser amigo, é ser um mestre que se dispõe a estar afetivamente com o aluno.


Dabid Le Breton, sociólogo e antropólogo Francês, explica que as pessoas não estão inseridas no mundo como um objeto e com sentimentos passageiros. Elas estão sempre submetidas às influências dos acontecimentos e são tocadas por eles, em virtude das suas ações e relações com os outros.


"Mesmo as decisões mais racionadas ou mais 'frias' envolvem afetividade. São processos embasados em valores, significados, expectativas, etc. Seu processamento envolve sentimentos, o que diferencia o homem do computador." (Le Breton, livro Antropologia das Emoções (2009).

São os afetos que simbolizam a permanência, a relação do homem com o mundo e a sua intimidade inserida nos acontecimentos do quotidiano, explica Le Breton. Temos sempre uma apropriação de afeto sobre os objetos que nos cercam e que é duradoura, independentemente do tempo.


"A emoção é a própria propagação de um acontecimento passado, presente ou vindouro, real ou imaginário, na relação do indivíduo com o mundo". Exposta em momento provisório, é originada de um fato, no qual o "sentimento se cristaliza com uma intensidade particular: alegria, cólera, desejo, surpresa ou medo". (Le Breton)

A medida que a relação vai se fortalecendo, mais afetos virão e consequentemente o aprender se tornará inevitável e haverá prazer em estudar. Pelo menos é isso que acredito e vivencio diariamente. Gosto de estar com os meus alunos e fazer parte da vida deles. Tudo que os cercam, faz sentido para mim.


A sala de aula é um acontecimento significativo que demanda situações no qual o medo, o carinho, o aconchego e até mesmo a raiva se faz presente. É preciso estar atendo a isso e aproveitar bons afetos que cristalizem o cotidiano do aluno.


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Se é necessário (re)elaborar sentimentos em todas as relações, imaginem a importância dos afetos na relação professor x aluno? Somente com eles é que teremos sucesso em nossas viagens e durante os nossos voos as turbulências podem ser reduzidas.


Sou um professor que sem as minhas asas não consigo voar. Meus alunos sustentam minha aeronave. Quero levá-los constantemente a outros horizontes. Isso só consigo por acreditar que há uma relação afetiva com eles. Todos são peças importantes para os meus pousos e decolagens.


Mosaico: editado e produzido pelo próprio autor.

Que possamos seguir nossos caminhos de docente com afeto, respeito e sintonia. Só assim teremos um mundo melhor e melhores alunos.


Aquele abraço a todos e todas.


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*Mario Abel Bressan Júnior é professor no Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem e nos Cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da UNISUL (SC). Líder do Grupo de Pesquisa Memória, Afeto e Redes Convergentes - .marc (CNPq). Doutor em Comunicação Social pela PUCRS - Famecos. Avaliador do INEP para autorização de Cursos da área da Comunicação e Marketing. E-mail: marioabelbj@gmail.com

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