A sala de aula é um universo de confrontos: político, ideológico e de saberes.

Atualizado: 1 de Jul de 2019

A Educação sempre será um ato político, no meu caso, em especial, refiro-me ao ensino superior, porque é o espaço onde eu ocupo há quase dezoito anos, exercendo a docência nos cursos de Comunicação: Jornalismo, Publicidade, Rádio e Tv e Relações Públicas. Nesta perspectiva histórica, me apoio nas ideias de Edgar Morin, quando o autor coloca o pensamento complexo indissociável do princípio dialógico, isto é, seus pressupostos consideram os contrários sem a necessidade de exclusão. É um conhecimento voltado para o conhecimento:


Todo o conhecimento supõe ao mesmo tempo separação e comunicação. Assim, as possibilidades e os limites do conhecimento revelam do mesmo princípio: o que permite o nosso conhecimento limita o nosso conhecimento, e o que limita o nosso conhecimento permite o nosso conhecimento. O conhecimento do conhecimento permite reconhecer as origens da incerteza do conhecimento e os limites da lógica dedutiva-identitária. O aparecimento de contradições e de antinomias num desenvolvimento racional assinala-nos os estratos profundos do real. – Meus Demônios, Edgar Morin)

Vivemos uma realidade multidimensional, hipermidiática, simultaneamente econômica, psicológica, mitológica, sociológica e principalmente política; mas estudamos estas dimensões separadamente (em caixas), e não umas em relação com as outras. No entanto, quando o ministro da educação Abraham Weintraub anuncia (na compreensão da peça publicitária em si mesmo) o bloqueio de parte do orçamento das universidades e institutos federais, sob o pretexto de que elas promovem a balbúrdia e têm baixo desempenho científico, necessariamente não significa que ele esteja desapontado com a performance do ensino superior das escolas públicas, ou que sua preocupação é com a real melhoria nas dimensões da qualidade do ensino no Brasil. Ao contrário disso, quando há uma proposição deliberadamente raivosa e pejorativa sobre a educação pública (sem qualquer fundamento científico com foi visto na mídia), especialmente vindo de um ministro da educação, que se quer teve tempo de compreender e estudar a realidade de suas instituições, sem explicar de onde vêm os dados para tal media, fazendo comparações dos gastos do ensino superior com a educação básica, só denotam o ocultamento de manobras políticas escusas, do alto escalão; porém muito articuladas com outras ações governamentais, já evidenciadas em tantas outras discussões de âmbito econômico e em outros discursos e pastas.


O Ministro da Educação não discute estratégias para melhorar a gestão das universidades, mas fala dos aspectos econômicos com relativa fluidez, ou seja, o foco nunca foi e nunca será com o compromisso da melhoria na educação. Por isso, as análises discursivas, sobretudo, sob a luz de Foucault nos permite identificar quais foram os efeitos de subjetivação a partir da existência de outros discursos que determinados sujeitos formulam, tanto em suas deliberações discursivas midiáticas, quanto nas suas dinâmicas de ocultar a verdade, para o sujeito, sobre ele mesmo.


Nesta perspectiva, a subjetividade está estreitamente relacionada às relações de poder. Para Foucault, o poder não atua apenas oprimindo ou dominando as subjetividades, mas, principalmente, participando do seu processo de construção.

Em outra dinâmica, quando discuto em sala de aula as novas configurações do mercado publicitário, não estou falando exclusivamente do desenho estratégico dos modelos de negócios, que implica o modus operandi das agências de publicidade, ou ainda, de como a tecnologia está afetando as novas práticas criativas. Inexoravelmente refiro-me ao comportamento social dos profissionais, da conduta econômica dos novos chefes de estado e como a política econômica está privilegiando e favorecendo as empresas de tecnologia nos próximos anos; inclusive, deveria entrar em pauta ainda, os jogos de interesse que estão presentes nas fusões, aquisições e tributações dos novos serviços publicitários e ainda, como a mídia de massa está se comportando frente as redes sociais e todas essas mudanças.


Foto: de Lidia Zuin FollowNov 19, 2018 (entrevista de William Gibson, em 2003, para o The Economist: O futuro já está aqui, só não está igualmente distribuído. UP Future Sight Periódico sobre comunicação, futurismo e impacto positivo.

Para o governo federal é mais fácil desqualificar o estudante que se coloca em oposição a sua conduta de se fazer política, do que reconhecer que a sua incapacidade de governar para a educação, que por sua vez esbarra em outros problemas de gestão, mais sensíveis, como corrupção e discriminação social. O mais aterrorizante, porém, não é pensar que temos ausência de projetos para educação, mas que nossos líderes políticos têm usado a mídia e a tecnologia para construir uma sociedade de vigilância, controle e propagação de discursos de ódio.


Quando eu piso em sala aula, mesmo reconhecendo todas minhas limitações intelectuais devo articular um pensamento crítico, inclusive, que gere uma energia de pensamento de oposição, as vezes contrária ao que os alunos acreditam que seja de senso comum, na expectativa que esse confronto promova o debate, estimule a interação dos indivíduos, dos mais passivos aos mais articulados, gerando um estímulo à pesquisa pós-momento de aula (mais leituras e mais flexões críticas).


Portanto, o discurso ideológico, aquele mesmo estudado nas referências de Jean Baudrillard, nas aulas de criatividade, talvez seja uma das principais materialidades encontradas no expediente do trabalho do publicitário, especialmente quando o discurso deliberado dos cortes financeiros promovido pelo ministro é proferido em todas as mídias, definindo os jogos de poder que estão na mesa. Nos sabemos, mesmo sendo falso e equivocado, de que pode ser conveniente para sociedade acreditar que existe uma racionalidade econômica para o bem comum (persuasão), mesmo sem encontrar um sentido lógico, que se faz necessário para as mudanças idealizadas pelo Presidente ao criar esses picos de tensão. É a mesma coisa que fazemos com o mito do Papai Noel, todos os adultos e boa parte das crianças sabem que é uma fábula a serviço do consumo (mesmo o consumo assumindo uma característica pejorativa), mas é conveniente manter o mito, porque a sociedade como um todo se beneficia deste sistema; as crianças continuam ganhando presentes e o mercado continua vendendo e impulsionando a economia, a publicidade promove muitas campanhas e continua vendemos serviços.


No entanto, todos sabemos que a educação não é uma expertise deste governo, o ministro anterior, Ricardo Vélez Rodríguez é a materialidade mais cruel dos fatos, promovendo uma sucessão de trapalhadas que culminou na sua demissão em tempo recorde. Um dos absurdos foi chamar, em entrevista à revista Veja, os brasileiros que viajam para o exterior de canibais, que “roubam coisas dos hotéis e até o assento salva-vidas do avião”.  A educação é em si e sempre será um ato político, as vezes de oposição, importante para denunciar a ausência de projeto que inviabiliza a melhoria da educação em todos os níveis; mas é conveniente para a sociedade acreditar que o contigenciamento da verba faz sentido, na perspectiva que gera economia, mesmo refutando todo impacto social histórico da pesquisa e da ciência, gerando um grande atraso social para o Brasil.


Independente da lógica do atual governo, o grande problema é quando o discurso se institucionaliza, ocultando coisas mais sérias e que não são tão visíveis ao senso crítico do cidadão comum. Por isso, torna-se imperativo que professores não sejam imparciais e insensíveis com os fatos que atingem o país, especialmente quando isso envolve um grande jogo estratégico de compra de mídia, utilização de robôs na produção e distribuição de conteúdo e na lógica de inserção de propaganda política ideológica integrada em redes de comunicação (tudo é matéria de aula). Nesse novo mundo, a Inteligência Artificial é capaz de mimetizar conteúdo humano, e tem o potencial de ser usada por maus atores, e campanhas financiadas por Estados, para influenciar os sentimentos da população de várias formas.


Estamos, em verdade, testemunhando uma explosão de fraude online. Ideologia, mídia e discurso político são matérias basilares de nossa profissão e entrarão em sala de aula sim, e em hipótese alguma podemos negar a responsabilidade de lidar com a complexidade. Infelizmente estamos muito presos ao pensamento linear e as leis de causa e efeito; estamos acostumados a fazer de teorias e conceitos sob lentes únicas para ver o mundo e acreditar que, a “nossa teoria”, senão é a única correta, é a que melhor serve para compreender o mundo.


Ser professor deve ser um ato político, uma força em prol da educação, do respeito a diversidade, da garantia ao acesso no ensino público de qualidade, do direito de sonhar e de querer um nova política para o país, pautada na ética, no respeito e na integridade moral. Precisamos e dependemos das humanidades, porque ao que tudo indica, a crise pós-moderna é moral, de desrespeito a diversidade, credo, raça, gênero e opinião.



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Rodrigo Stéfani Correa, docente do Curso de Publicidade e Propaganda do Departamento de Ciências da Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Pesquisador do Grupo de Pesquisa IEP (CNPq) e Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC). e-mail: rodrigo.correa@ufsm.br

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