A pandemia e suas várias variáveis.

Alessandro Souza*


Toda vez que falta luz, o invisível nos salta aos olhos. A assertiva está em uma da letras que compõem um dos álbuns que mais gosto do rock brasileiro(1). Aproprio-me dela, neste relato, para resumir os momentos anteriores a minha primeira aula ao vivo online. Havia necessidade de seguir adiante, mesmo que não se vislumbrasse imediatamente o que haveria pela frente. Algumas luzes do outro lado da tela, mas o processo em si era como se locomover no escuro, ao menos no desafio da primeira aula. Como já parece ser senso comum nas falas com professores, diversos colegas “experenciaram” um novo formato em meio à mudança. Fez-se necessário enxergar o invisível. Creio que enxerguei/enxergamos e divido algumas observações com você(s).


Alguns autores entendem que a inovação, em diversos casos, emerge de cenários “forçosos”. Dito de outra forma, as circunstâncias impelem ou incentivam mudanças que, antes, não pensávamos/imaginávamos e, por isso, logicamente não implementávamos. O dito popular “a dor ensina a gemer”, com todos seus riscos reducionistas, dialoga com essa percepção sobre inovar. Nesse esteio, entendo que a travessia que começou tensa, terminou adequada/serena. Excetuando as indeléveis perdas de um sistema mediado por tecnologia, quais sejam, grosso modo, proximidade física e suas sensorialidades, houve alguns ganhos. Diria que são pequenas vitórias, dadas as circunstâncias (cenário imposto com pouco tempo para “adaptações”). Porém, com potencial de se tornarem maiores a partir de mais ampla curva de aprendizado.


Imagem ilustrativa, fornecida pelo autor.


Os meses de docência ao vivo online mostraram-me que parte considerável dos alunos se organizaram adequadamente para as aulas. E quando não podiam estar ao vivo, as recuperavam em tempo hábil. Essa autogestão compartilhada considero um ganho: a sala de aula se expandiu no sentido temporal. O senso de (co)responsabilidade fez-se notar. Eu confesso que tinha algum receio quanto a isso – noção da velha centralidade do professor. Minhas preocupações começaram a diminuir ali pela terceira e quarta aulas – “eles realmente estão aqui” (mesmo que por vezes com “câmeras fechadas” e suas significações do “invisível saltando aos olhos”).


Outro aspecto que julgo relevante foi a apreensão do conteúdo. Estava bastante curioso (e apreensivo) quanto ao resultado dos trabalhos, principalmente os prático-aplicados. Tive preocupação em trazer uma convidada externa detalhista, analítica e empática, muito identificada às peculiaridades da disciplina “Fundamentos de Marketing” (teórica, situada no ciclo inicial de curso) e da ESPM. Uma egressa de alto desempenho em todas as esferas que, julgo, fundamentais a uma pessoa inspiradora: profissional, acadêmico e pessoal (no sentido de empatia, humanismo, zelo). Esta colega diferenciada teve a incumbência de dirigir um briefing às turmas, bem como de participar das “bancas” de apresentação. Minha (boa) surpresa foi perceber que os trabalhos mantiveram o nível das aulas dos semestres anteriores. Não houve variações significativas (para menos ou para mais). Ou seja, o processo “eles estão aqui” refletiu em produto “eles produziram bem”. Aqui cabe uma observação: índices numéricos de notas se mantiveram estáveis em relação aos semestres pré-pandêmicos. Grata surpresa. A escuridão deixa de assustar.


Se antes mencionei processo e produto, é mister resgatar metodologias. Foi um semestre desgastante, algo previsível dada a tensão pelo novo, mas, também, porque houve preparo (físico, temporal) distinto de atividades e materiais específicos às idiossincrasias. Vali-me de textos complementares, debates em grupo de WhatsApp (um para cada turma), estudos de caso e projetos. Se antes da pandemia costumava disponibilizar praticamente todos os materiais previamente, neste semestre agi distinto. Ao perceber que o tempo e suas angústias seriam um passivo, “soltei” materiais escalonadamente e por diferentes dispositivos. Montei um cronograma de forma a fazer a disciplina esgrimar a temporalidade, dentro do que era possível. Estive mais presente no dia-a-dia dos discentes. Por vezes uma fala na plataforma, outrora no grupo de WhatsApp, algumas vezes por “avisos”. Dosei para preencher o tempo de forma a lembra-los: “hey, estou aqui e lembrei de vocês”. Foi muito gratificante perceber os retornos. Sempre (e não é força de expressão) houve alguém a retribuir (“hey prof., estou aqui também!”). Abria sorrisos lá e abro aqui no texto - :) .


Em suma, os espaços ficaram menores. Mas a sala de aula, ao menos no sentido de intervenções, ficou mais espaçosa. Em retrospectiva, creio que podemos viver com isso: nossas novas várias variáveis.


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(1) O disco chama-se Várias Variáveis. A música Piano Bar. A banda Engenheiros do Hawaii. Nesse álbum, nota-se uma influência significativa do Rush, inclusive no projeto gráfico da (então) contracapa. Há letras inspiradas e uma atuação avassaladora do guitarrista Augusto Licks.



* Alessandro Souza, professor e coordenador dos cursos Publicidade e Propaganda e Jornalismo da ESPM Porto Alegre. E-mail: alessandros@espm.br

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