A coisa mais estranha do ensino remoto é a sensação de dar aula para um computador


Valéria Maria Vilas Bôas*


Cheguei na UFS em dezembro de 2019 e embora tenha estado em sala de aula entre fevereiro e março, 2020-1 seria o meu primeiro semestre iniciado no curso de Publicidade e Propaganda desta universidade. Com a paralisação de atividades por conta da pandemia de coronavírus, contudo, a ansiedade de chegar a um curso novo, conhecer as turmas, o funcionamento dos projetos e atividades se transformou em algo um pouco mais complicado. Nas primeiras semanas de paralisação, sonhava constantemente com uma sala de aula cheia e com situações de diálogo intenso com uma turma cujos alunos eu não conseguia identificar. Comecei a entender, então, que a experiência de estar em sala de aula e de construir laços com os estudantes a partir desse território partilhado da comunicação – que permeia uma parte significativa da minha vida desde que me tornei docente há alguns anos –, seria transformada pela situação do ensino remoto que se impunha como uma necessidade urgente.

Com as atividades de ensino ainda paralisadas, fui convidada por uma colega do curso para pensarmos juntas na proposta de um curso de extensão que auxiliasse os discentes em fase de construção do projeto de TCC. Éramos três professoras, 35 alunos inscritos inicialmente e algumas inseguranças. Já no primeiro encontro, a frase que se tem repetido muito entre docentes nesses tempos se materializou de modo muito concreto para mim:

“A coisa mais estranha do ensino remoto é a sensação de dar aula para um computador”.

Saí da aula em pânico. As outras duas professoras já conheciam a maior parte dos alunos presentes, então ainda que as câmeras estivessem desligadas, tinham uma ideia da audiência que lhes escutava. Para mim, no entanto, a falta da experiência visual de acompanhar a reação dos alunos à aula me pareceu, naquele momento, uma dificuldade difícil de superar.


Imagem fornecida pela autora, disponível na URL: http://pctguama.org.br/wp-content/uploads/2016/08/photo-1424392904403-8e1c65a6133a-1484x957.jpg

Leitora que sou de Paulo Freire, meu pânico com a sensação de estar dando aula para o além se relaciona com a crença de que naquele ambiente não sou a única detentora de saberes e com a esperança de que a sala de aula seja sempre lugar de uma interação necessária para o avanço do conhecimento. Mas essa mesma necessidade de compreensão daquele outro com quem dialogo me coloca na posição de perceber que exigir que os alunos liguem a câmera não é uma opção viável em um momento em que o ensino remoto se tornou nossa única possibilidade e muitos deles sequer têm equipamentos ou um espaço apropriado para estudo em casa.

Ao longo dos dez encontros realizados em dois meses, a vontade que tínhamos de que aquilo desse certo nos obrigou a encontrar caminhos para construir interação. Especialmente por conta da proposta do curso – a de discutir propostas iniciais de projetos de TCC – essa era uma condição para a sua realização. E encontramos. Mesmo com as câmeras desligadas, a turma foi criando coragem para abrir os microfones e discutir suas ideias, suas propostas, e o fantasma de estar falando com uma cadeira vazia do outro lado foi se diluindo. Precisei lembrar, afinal, que os alunos são a razão de ser da sala de aula e que é preciso confiar na sua vontade de estar ali.


Alguns alunos ficaram pelo caminho e isso ainda me preocupa porque não temos as condições ideais para avaliar nem os motivos, nem as consequências dessas ausências – pode ter havido motivos mais banais, como a desconexão entre a expectativa do aluno e o programa de curso ofertado, mas em alguns casos as inúmeras desigualdades presentes entre eles, certamente, foram e serão decisivas para a possibilidade de que concluam o curso e se insiram no mercado de trabalho de modo qualificado. É preciso estar atento, avaliar a evasão e as possibilidades de manutenção dos estudantes no curso constantemente e criar condições para que as desigualdades de acesso ao ensino remoto não sejam decisivas em seu futuro. Para dar conta de tantos desafios não previstos, neste novo contexto de sala de aula tem sido necessário lembrar que a vida e o aprendizado são processos e que também nós, docentes, precisamos ser capazes de recomeçar, de fazer diferente, de testar novos métodos e fazer do aprendizado, como argumenta Paulo Freire, “uma aventura criadora”.


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*Valéria Maria Vilas Bôas é professora do curso de Publicidade e Propaganda no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Sergipe. E-mail: valeriavilasboas@academico.ufs.br

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