“É a disciplina mais difícil do curso e precisa ler muito”

*Filipe Bordinhão

Qual o professor que ministre a disciplina de Teorias da Comunicação já não ouviu essa “conclusão” dos seus alunos? Então, essa é a realidade imediata com a qual nos deparamos desde o primeiro dia de aula. E, pelo que percebo, isso não é exclusividade de uma ou outra turma ou até mesmo instituição, pois tal pré-conceito parece ser construído a partir de uma longa “conversa de corredor” entre os alunos, no decorrer dos anos, e que, para muitos, torna-se “verdade” e motivo para gerar certa resistência ou até desinteresse por assuntos teóricos que, a meu ver, são centrais para situá-los e proporcioná-los bases que os afastem do senso comum e da superficialidade do conhecimento científico da área. Faço questão de reforçar essa última parte, pois sabemos que alguns Cursos estão dando menor importância para esse tipo conhecimento e, para os casos mais graves, até tirando deixando de lado na formatação das suas grades curriculares (Enfim, é uma discussão para outro momento!).


Diante desse cenário que, pelos olhos dos estudantes, marginaliza a disciplina, especialmente frente aos assuntos muito mais atuais, dinâmicos e “tecnológicos”, é que sempre busquei “flexibilizar” o ensino de algo essencialmente teórico (reforço: segundo os alunos “muito difícil” – o que não discordo por completo, afinal sabemos que existem matérias muito mais leves e atrativas, especialmente quando pensamos a parte prática da profissão que tanto encanta os jovens universitários), a fim de potencializar a aprendizagem e, ao mesmo tempo, atrair a atenção de um público cada vez mais ansioso, disperso e conectado – justamente o que parece estar na contramão da disciplina que, necessariamente, precisa de uma abordagem histórica e evolutiva para a compreensão da Comunicação Social.


Por isso, há 3 anos quando assumi a disciplina de Teorias da Comunicação e me deparei com essa realidade, agravada pelo baixo interesse e índice de leituras entre os alunos, percebi que a criação de um espaço mais lúdico e criativo dentro de uma disciplina “engessada” poderia ser um mecanismo não só capaz de facilitar a aprendizagem, mas também de despertar interesse, participação e engajamento com o conteúdo. Foi, então, que analisando a rotina dos meus alunos constatei a centralidade que a música tem nas suas rotinas diárias (é só olhar presença dos fones de ouvidos e aumento no uso do Spotify entre eles), bem como a variedade de estilos musicais “curtida” por eles. A escolha de um recurso de áudio (e vídeo - os videoclipes estão em alta na indústria fonográfica mediada pelo contexto digital) também se justifica por perceber um crescimento expressivo no interesse dos alunos na área de produção audiovisual no Curso de Publicidade e Propaganda, inclusive muitos já atuam como músicos, Youtubers, digitais influencer, entre outros. Assim, reconheci que a articulação do conteúdo a isso poderia ser um estímulo para a leitura e participação em aula e, também, uma forma de se reverter em notas melhores em uma disciplina que, tradicionalmente, tende a ter médias menores e mais dependências.


Antes de seguir, quero dizer que essa não foi a única forma de “flexibilizar e potencializar” o conhecimento, pois em outros momentos também faço metodologias ativas que envolvem a leitura, discussão em grupo e correção de gabarito a partir de uma sistema de perguntas e respostas. Ou ainda o chamado “resumão”, um método definido em consenso com a turma, o qual ao final de cada aula reservamos alguns minutos para que os alunos exponham tudo o que aprenderam e/ou anotaram para que assim o professor transcreva no quadro negro os principais pontos discutidos em aula, bem como esclareça as eventuais dúvidas ou confusões sobre as Teorias e os autores.


Mas, voltando ao trabalho sobre a música, que tinha como tema a Teoria Hipodérmica, a proposta é a de formem grupos de 3 ou 4 alunos para que desenvolvessem uma música sobre o conteúdo. A atividade envolve 3 etapas: 1) ida dos alunos à biblioteca da Universidade (o que já algo bastante interessante, visto que é um espaço de maior concentração e por não ser um hábito comum para muitos alunos) para que retirem os livros, reúnam-se nos grupos, leiam e discutam a teoria sob a orientação do professor; 2) como atividade extraclasse deveriam, a partir do domínio da teoria, desenvolver a letra e a gravação de uma música inédita ou paródia (de estilo musical livre, afinal os gostos vão do rock, passando pelo sertanejo e o pagode até o funk) abordando os principais assuntos da teoria (autores, contexto histórico, conceitos centrais, etc.). Além do conteúdo da Teoria, nesse momento, inclusive, os alunos poderiam não apenas exercitar o conhecimento técnico sobre o audiovisual, como também exporem seus talentos na música (https://www.youtube.com/watch?v=ofW3RqxrWIQ&feature=youtu.be); 3) Por fim, a terceira etapa corresponde ao momento no qual os alunos apresentam suas produções para a turma. Aqui, cria-se um espaço de aprendizagem de caráter lúdico e descontraído, além de um ambiente de superação da timidez (quando algum deles são os próprios "cantores") e integração entre a turma.


Nisso tudo destaco o envolvimento da turma com a disciplina e a qualidade dos trabalhos, visto que muitos não apenas gravavam as músicas (https://soundcloud.com/larissa-fernanda-909763945/teoria-da-comunicacao-parodia), mas geravam materiais audiovisuais extras e impressos customizados. Por fim, observei o cumprimento do propósito maior da atividade: aprender o conteúdo e o expressivo aumento nos acertos das questões relacionadas ao assunto na prova bimestral. Dessa forma, hoje, posso dizer para os meus alunos que embora Teorias da Comunicação seja “a disciplina mais difícil do curso e [que] precisa ler muito”, ela também pode ser legal, divertida e, principalmente, de fácil compreensão.


Figura: Entrega criativa - capas dos trabalhos da música sobre a Teoria Hipodérmica.

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Filipe Bordinhão, coordenador da Pós em Comportamentos de Consumo e professor nos Cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda, na Universidade Positivo (UP). É publicitário e doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria. filipebordinhao@hotmail.com

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